Atrás do meu biombo. 8 de junho de 2018 – Publicado em: Artigos

Existem biombos de vários tipos e para várias funções: decorativos, aqueles para separar os ambientes, mas o que acho mais interessante, para não dizer curioso, são aqueles biombos utilizados para literalmente esconder “tralhas”.

Esse texto é uma homenagem carinhosa a uma amiga querida, irmã mesmo e para todos aqueles que ainda possuem esse espaço morto atrás do seu biombo:

“Hoje resolvi abrir as folhas do meu biombo, grande, pesado, enfim, suficiente para guardar todas as minhas preciosidades. Sei lá, tive vontade de rever minha vida (ou a parte morta dela…).

Atrás do meu biombo não é um espaço tão grande, mas com certeza uma família inteira poderia morar tranquilamente e ainda com direito a residência mobiliada porque atrás do meu biombo tem de tudo um pouco (ou muito): colchonetes, tapetes, mesinha, cadeiras (muitas), fogareiro, frigobar (desligado), radinho, televisão, toalhas, almofadas (muitas) e livros, centenas de livros de todos os temas possíveis, afinal sou eclética. Mas não empresto esse espaço por nada desse mundo, muito menos nenhuma agulha sequer que esteja atrás do meu biombo. Afinal, quem cuidaria tão bem dos meus tesouros?

Mas como eu dia dizendo, fui rever todas as minhas coisinhas que são tão preciosas, porque cada uma delas possui na sua essência uma vivência, algumas tristes, mas a maioria delas, só de felicidade.

Tem aquele abajur fofo…Tudo bem, cafona, fora de moda, ninguém ia aceitar nem emprestado, mas ele me lembra aquela viagem que fiz com meu ex-marido. Fomos para a Europa e foi tudo de bom. Foi um dos poucos momentos felizes que tivemos juntos, mas tudo bem, afinal casamento não significa prazer mesmo…E o que foi que ele me deixou? Aquele pão duro, descabeçado. Nadica de nada. Ah, sim, me deixou dois filhos para eu acabar de criar na pior fase da vida deles: adolescência. Até hoje me deixam doida!

Aliás, mal falam comigo! E quando falam, a gente briga. Ultimamente não tenho tido mesmo muita vontade de falar; aliás não tenho vontade de nada. Trabalho de vez em quando, faço supermercado, vou ao salão de beleza, mas a maior parte do meu tempo fico na minha cama, na companhia dos meus gatos, olhando a TV e comendo algumas besteirinhas deliciosas e pecaminosas.

Afinal em alguma coisa a gente tem que pecar…

O que mais tem atrás do meu biombo? Ah, tem todos os brinquedos e jogos da minha infância que foi tão linda, tão cheia de ternura, embora minha mãe era um general e meu pai só tinha tempo para o trabalho, mas tudo bem, afinal, mãe e pai são feitos para nos educar e dar limites…Isso eles fizeram até bem demais…

Nossa! Estava quase me esquecendo da minha coleção de pedras…acho que tenho todos os cristais de todas as cores, de todos os lugares do mundo, bem guardadinhos dentro de uma caixa. Dizem que eles servem para melhorar a saúde, mas como será que eles funcionam? Já fiz tantos cursos sobre o assunto, mas acho que ainda não entendi nada, afinal cada professor maluco…

Atrás do meu biombo tem um guarda roupa enorme, pesado, escuro, repleto de livros. Alguns eu já li, mas a maioria eu ainda vou ler um dia…assim como todas as roupas fora de moda, ou fora do meu peso que eu guardo, um dia ainda vou usar…As modas vão e vem e na semana que vem, sem falta, começo a academia e o regime.

Lembrei daquele tapete gigante, que está dobradinho e embalado…gente, ele é lindo…É tudo que restou daquela mansão que morei um dia com o meu ex, meus filhos…Que saudade! Que época maravilhosa. Aquela casa tinha um jardim deslumbrante que eu mesma fiz, quantos pássaros nos visitavam todos os dias, mas a casa era alugada e quando nos separamos, resolvi morar com os dois filhos nesse apartamento minúsculo, pelo menos não me dá trabalho e o condomínio é baratinho.

Eu não vou me desfazer desse tapete nunca! Vai que um dia eu ainda resolva comprar uma casa grande…tem aquela herança do tio Zequinha que está na justiça há anos, mas um dia sai e com aquele dinheiro vou comprar uma casa enorme e outro biombo maior ainda e guardar muito mais preciosidades, afinal o que se leva dessa vida?”

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